RSS

Monthly Archives: July 2005

só um poeta…

 

Aprendiz de Utopias

 

Diotima

18-7-2005

A alegria e a tristeza das crianças são de natureza diferente do que um adulto sente. E só os adultos-poetas têm acesso ao sentir do mundo da infância. Os poetas e também os pais, os avós. Pois àqueles que forem (que forem mesmo!) pais e avós, ajusta-se o que Goethe escreveu: A idade não nos torna adultos. Não! Faz de nós crianças de verdade.

O nascimento de uma criança é coisa para celebrar, neste tempo de celebração da morte, em Madrid, Cabul, Bagdad, Londres…

Um amigo sensível descreveu o nascimento da sua primeira filha, numa mensagem de correio electrónico. O Marcos apercebeu-se da emoção que assaltou este avô piegas, enquanto lia. E não despegou os olhos dos meus olhos molhados. Não houve solução, senão ler a mensagem de modo que ele a ouvisse. Como a entendeu eu não sei. Sei que a escutou, muito atento, até ao final. Depois, voltou para as suas brincadeiras. Não manifestou estranheza, talvez porque a beleza seja sua companheira habitual.

Não consigo imaginar o alvoroço de alma do Amândio, perante a visão de uma criança rompendo um ventre de mãe. Nem esse sentir caberá em palavras. Mas ouso transcrever algumas das escritas pelo meu amigo, assumindo o pecado da indiscrição, para poder partilhar o que sinto: Quando vi a Diotima sair da mãe, a minha primeira impressão foi a de um gesto repetido mil vezes, algo muito para além de uma vida. Senti-me um deus humilde e criador. Estava em contacto com a vida e também com os mortos. Olhei a janela, e a cidade estava envolta num vermelho como só em Roma, e só quando morre um imperador. A Lua Cheia erguia-se dominadora entre os sinais do céu. E tudo começa. 

O meu amigo e a mãe da Diotima são actores de teatro. Representam como quem respira. São dois seres que geram filhos com o mesmo amor de que é feita a sua arte. São inteiros e puros. Criança que, no útero, esteve atenta à doce música das suas palavras, criança que vai ser embalada em braços que geram beleza, nasce abençoada. Faz-se poeta ao nascer.

Quando outras crianças-poetas (é redundante, mas é propositada a justaposição) quiseram estudar a "cor das vogais", o trabalho culminou em contributos para um belo livro, que dá pelo nome de "As palavras são como as cerejas". Amiúde, leio para o Marcos alguns poemas desse livro, escritos pelos meninos da Ponte: Esta palavra é amor / Aquela palavra é irmão / Esta palavra é espera / Aquela palavra é dor / Esta palavra é silêncio / Aquela palavra é beijo / Esta palavra é o pão / Aquela palavra é o linho / Cada palavra é um gesto / Cada gesto uma palavra / São a vida estas palavras. 

Estes versos aconteceram, como acontece a madrugada, no quotidiano de uma escola, onde a alegria e a tristeza – matéria de que é feita a poesia – andam a par. E, quando se pediu às crianças uma definição de escola, elas escreveram: a minha escola é como plantar um sonho no jardim das letras, é como chorar mil palavras num rio de lágrimas. 

A alegria e a tristeza das crianças são de natureza diferente do que um adulto sente. E só os adultos-poetas têm acesso ao sentir do mundo da infância. Os poetas e também os pais, os avós. Pois àqueles que forem (que forem mesmo!) pais e avós, ajusta-se o que Goethe escreveu: A idade não nos torna adultos. Não! Faz de nós crianças de verdade. 

O impulso poético revela-se e ganha raízes, se o aprender a ler e a escrever não for repetir carreirinhas de letras, mas um exercício de canseira e paixão. A poesia consubstancia-se na palavra escrita, mas não só – inscreve-se no mais íntimo acto de um educador.

Numa escola onde se respire poesia – lá volto a ser redundante, pois só haverá escola onde se respire poesia – a toda a hora, se reinventa a palavra: "Gostaria de ser astronauta, para espiar as estrelas. Ser feliz é poder acampar nas nuvens de todas as cores. Em cada cor há um sentimento. Quando fecho os olhos, as cores estão lá. Eu vejo-as. Eu sinto-as. Sinto tanta coisa cá dentro do peito. Eu acho que podia fazer um poema. Mas não consigo rimar". 

Se a Diana não se apercebe de que está a inventar poesia que não rima, o Dario, moço-poeta de oito anos de idade, está consciente do seu dom. Numa manhã de escola, talvez inspirado no verde das árvores que o sol de Primavera sublinhava, foi um pequeno Lorca: O amor é verde / Doce como pipocas / Mas com açúcar a dobrar / Cheira a carvalho / E é mais quente que um vulcão a fervilhar / Tem o som de qualquer coisa / De que eu não posso falar /Move-se como um caracol / Pois é leve / E faz-me sentir feliz. 

Voltemos à "cor das vogais", evocando uma história antiga. Aquela em que um miúdo pergunta ao pai:

 Pai, qual é a cor do A? 
 Não sei, meu filho. 

E a todas as perguntas que o filho lhe faz o pai vai respondendo não saber…

 Pai, não te importas que eu continue a fazer perguntas, pois não? 
 Não, meu filho. Se assim não fosse, como te poderia ensinar todas as coisas? 

Assim vejo o Amândio, neste momento, falando com Diotima, num enleado olhar calado que tudo diz. Pois nem só de palavras vive a poesia. Também é feita da sabedoria dos silêncios. Sobre eles se constrói, tal como a música. E como dói encontrar adultos que não sabem que só a poesia é real!…

 
1 Comment

Posted by on 21 de July de 2005 in Uncategorized

 

Tags:

Poema em dia de anos

 
 
Hoje é o meu dia de anos e sinto-me feliz (por existir, claro!), por eu ser eu  e por ter feito e mantido ( a parte difícil…) amigos verdadeiros ao longo dos meus (já) 36 anos! (Bem, não sei se tenho já 36 ou não. A mamã não se lembra a que horas nasci… Ok, mas, mais hora, menos hora, tto faz).
Vou agora fazer aqui o registo de um poema de Fernando Pessoa que a minha amiga Vanda me enviou hoje de manhã. via sms, e que, segundo ela, muito tem a ver comigo… E, quem sou eu para a contrariar, quando a forma como nos vemos nem sempre corresponde à forma como nos veêm? Parabéns para mim…. muitos anos de vida (feliz, espero) e aqui vai o poema:
 
 
"O meu olhar é nítido como um girassol,
tenho o costume de andar pelas estradas,
olhando para a direita e para a esquerda,
e de vez em quando olhando para trás…
E o que vejo a cada momento,
é aquilo que nunca antes eu tinha visto,
e eu sei dar por isso muito bem…
sei ter o pasmo essencial, que tem uma criança se, ao nascer, reparasse que nascera deveras…
sinto-me nascido a cada momento, para a eterna novidade do mundo…"
 
 
Fernando Pessoa
 
 
 
1 Comment

Posted by on 20 de July de 2005 in Uncategorized

 

Tags:

sem título

 
 
 
 
 
Acordara cansado. Sentia aquela sede de novo. Levantou-se e saiu de casa rumo ao acaso até parar em frente do café que frequentava assiduamente. Antes de entrar lembrou-se que esquecera o jornal e correu a comprá-lo, como que para matar aquela sede que dele se apossara havia dias.
Regressou pouco tempo depois, entrou no café, jornal debaixo do braço, gabardina enrugada na mão, mala a tiracolo. Dirigiu-se para a mesma mesa de sempre e, lá estava ela, como que à sua espera, sem sorrir, sem se mexer, estalando apenas um breve gemido quando ele se sentou.
 Olhou de soslaio à sua volta. O café estava vazio. Talvez fosse simplesmente muito cedo. A boca abriu-se-lhe num enorme bocejo, sequiosa de amar e de se dar. Fechou-a suavemente com a palma da mão, mas ela rasgou-lhe a elegância e abriu-se de novo. Mais uma vez a fez fechar-se, mais uma vez ela se abriu, num bocejar ainda mais intenso e prolongado. Já algo aborrecido sentia que ela, boca teimosa, não obedecia às suas ordens internas, e eis que lhe grita em silêncio a plenos pulmões: "Sossega, insisto! Não mais te abras!Irrompe de vez da tua mudez ou permanece quieta para sempre!" E, erguendo-se, como que para tornar a sua ordem mais séria e veemente, elevou a palma da mão e calou a boca mais uma vez.
O empregado de mesa aproximou-se e, timidamente, com um "faz favor de dizer", interrompeu as introspecções orais e as batalhas que ele travava com a boca, havia horas. Ou seriam dias? Não, talvez fossem meses… Ele, contudo, não se deixou incomodar pela presença do tímido funcionário e pediu imediatamente, num acto que se havia tornado mecânico, "um café, por favor", mantendo o diálogo interno que estabelecia com a porta da parte superior do seu corpo.
De novo, a voz da sede de entrega que brotava das profundezas da sua alma e das suas entranhas, agora com mais violência, lhe fez abrir os lábios e a boca, como se esta gruta profunda no rosto de um homem estivesse agora a aborrecer-se e a mostrar-se cada vez mais sequiosa, exigindo ser regada,quiçá até simplesmente borrifada, uma vez que não lhe permitiam sentir-se saciada.
Bebeu o café de um trago, esquecendo o açúcar, sem apreciar o seu paladar, sem franzir o sobrolho por causa do amargo de boca. Só quando elevou de novo a chávena para beber mais um gole, reparou que  esta estava já vazia. "Meu Deus", pensou alto. " Estou pior do que eu imaginava!" "Esta sede irrompe  não sei de onde e invade-me com tal violência que me está a dominar os sentidos, me altera o paladar, me gela as veias, me acelera o passo!" Só a voz continuava quieta, esbatida, quase muda e, ele, limitava-se a balbuciar pequenos e imperceptíveis sons que mais pareciam gemidos,  interrompidos apenas para chamar o empregado, pedir um cinzeiro, trocar dinheiro para comprar tabaco ou para cumprimentar algum (des)conhecido.
Folheou o jornal do dia sem o ler, iniciando a "leitura" pela última página e deparou-se consigo mesmo a pensar por que razão o comprava todos os dias, se nem sequer o lia!? Depois, apercebeu-se que, sempre e só, o folheava e olhava de relance. "Que estupidez!", balbuciou, "porque faço eu isto? Será hábito, rotina, ou ssimplesmente e apenas um vício?"Ou … (o que é pior!) terei eu puro prazer em exibir o jornal?""Ainda por cima este gesto nem sequer me sossega esta sede flamejante, esta dor interna, esta vontade (ou necessidade) feroz de entrega, de recomeço!"
Levantou-se num ápice e abandonou o café. À medida que calcorreava as mesmas ruas íngremes e estreitas que distanciavam o café-paragem-refúgio da sua casa, tomou uma decisão: não mais comprar o jornal. Talvez fosse essa voz escrita que calava a sua e fazia agora gritar a sua voz interna que cada vez ansiava mais por espaços abertos e ouvidos acesos. E sorrisos de mel.
Enquanto prosseguia rumo a casa, compadecendo-se de si, sentindo até um pena profunda de si mesmo, deparou-se com um cão magricelas  e escanzelado, tão faminto, tão faminto, que parecia estar prestes a desfazer-se. Ele conseguiu até ouvir o som dos estalidos que os ossos do animal fariam ao se desmoronarem no chão. Chamou o cãozinho até si e afagou-lhe o dorso. Os olhos caninos lacrimejaram, encheram-se de um brilho molhado, onde ele pôde vislumbrar uma pontinha de alegria, uma alegria grata por haver um ser vivo que se lhe abeirava, que notara a sua presença e abandono, que agradecia a sua existência. Aí o animal olhou-o fixamente nos olhos como que suplicando:"leva-me contigo! Onde quer que tu vás, eu irei também e caminharei a teu lado!"
Ele acariciou de novo o animal, desta vez sem o ver, mergulhando mais uma vez nas suas tão treinadas introspecções, nos seus sentimentos de auto-piedade. "Tão só quanto eu. Tão sedento como eu…", pensou. "Eu, afinal, não sou muito diferente deste bicho, não levo uma vida muito melhor.Também eu estou abandonado." E continuou o seu percurso, sem se dignar olhar para trás para se certificarse o animal continuava em pé ou se se havia desmoronado, egoisticamente julgando ser o  mais miserável dos seres que habitam a face da terra.
Continuava a sentir aquela sede mas, como já inúmeras vezes sucedera, estivera bem perto da fonte que poderia serená-la e não a viu, não a sentiu. Esquecera-se que o amor ou a falta dele(que era afinal a razão da sua boca sequiosa) não surge flutuando no ar em forma de balão ou de coração, acompanhado por estrelinhas multicolores e saltitantes que se embalam ao som de valsas e boleros.
Havia também esquecido que o amor precisa de portas abertas para ser recebido, para poder alojar-se livremente, sem medo, sem ter que bater, sem pedir para entrar. Ele, porém, andava há muito demasiado ocupado com o seu ego, a sua auto-comiseração e as suas lágrimas internas que nem se apercebera que, o abandono que ele achava ser o que lhe restava, fora criado e construído por ele mesmo e a ele se entregara com numa quase devoção.
Finalmente avistou a porta da casa onde morava. Foi-se aproximando dela cada vez mais e, quando se preparava para meter a chave na fechadura a fim de entrar no que ele, no fundo, ansiava por considerar "o seu lar", voltou a enfiá-la no bolso traseiro das calças, deu meia volta e dirigiu-se rumo ao café de onde saíra havia apenas alguns minutos.
Repetiu o mesmo percurso, desta vez com o passo ligeiro que rapidamente se tornou apressado,os olhos baixos, contemplando apenas os dedos dos pés que saíam ligeiramente das sandálias. Esta contemplação foi somente interrompida pelo pensamento "preciso de cortar as unhas." Há muito que não o fazia; esquecia-se sempre. Talvez porque quase nunca calçava sandálias.
Proferiu uma blasfémia interna, de si para si, e continuou o seu caminho sem avistar um porta-chaves em forma de coração,no qual tropeçou, e onde estava gravada a letra A.
Entrou no café. Sentou-se na mesa que havia pouco rangera devido à sua presença. Desta vez nem sentiu que ela se manifestara. Pediu "um café, por favor", folheou o jornal sem o ler e, só quando o tímido empregado de mesa se lhe dirigiu com o café na bandeja, se lembrou que, quando num impulso abandonara o café, havia deixado a conta por pagar… 
 
 
 
                                                                                                                                                  
 
 
 
—————————————————————————Celeste
 
30 de Junho de 2005
 
0:03 h
—————————————————————————————-
 
1 Comment

Posted by on 16 de July de 2005 in Sem categoria

 

Tags:

silêncio

 
silêncio
 
 
fecundo
denso
calmante
profundo
angustiante
vazio
agreste
distante
seco
insistente
eterno
impaciente
reflexivo
exaustivo
enervante
cala-te, silêncio!
 


 
20 Junho ’05

 
Leave a comment

Posted by on 11 de July de 2005 in Sem categoria

 

Tags:

desilusão

Hoje foi um dia bem difícil para mim. Ser posta à prova é algo que me desagrada imenso. Que me controlem os passos ainda mais! Tive hoje grandes aborrecimentos na escola. Senti-me uma formiguinha minúscula que todos querem pisar e julgam que eu não vejo, não sinto. Neste momento já nada sinto de facto porque estou algo anestesiada pelo choro e grito interno e muuuuuuuuuuuuiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiito revoltada. Detesto que as pessoas me usem e me deitem fora. Odeio que não se apercebam que não me deixo manobrar e que posso ser tudo menos burra.
 Hoje fiz figura de ursa, muito provavelmente disse coisas que me vão prejudicar, mas pelo menos fui sincera e disse o que pensava e sentia. Novamente, e um ano depois, a história se repetiu e me senti novamente num tribunal, no qual sou réu e advogado de defesa. A história repete-se, sempre.
Adorava poder prometer a mim mesma que não vou permitir que tal aconteça de novo, mas o facto é que este clima de controle aceso, esta desconfiança que sinto em relação a mim, me desmotivam, desiludem, tiram as forças, encurralam. Tenho medo de me refugiar de novo na minha carcaça de caranguejo; tenho medo de desistir de viver. Tenho medo de deixar de lutar. Tenho medo, acima de tudo, de deixar de amar a minha profissão, a minha missão de ensinar. Porque eu sempre a encarei  como tal. Mas parece ultimamente que, de facto, não tenho ensinado nada, não tenho sido nada.
Tenho medo de parar para pensar e desistir. Tenho medo de ter que mudar a minha maneira de ser, o meu eu, para me ver respeitada. Tenho medo.
E sinto-me hoje, simplesmente, muito triste.
Só desejava poder ser livre e mudar de emprego. Só gostava de ser mais forte e que as coisas não me atingissem tanto! Só queria tão simplesmente ser menos sensível! E ter a frieza suficiente para virar as costas e mandar tudo à merda!
O único grande consolo que me resta para continuar a amar o que faço e para o qual nasci são os alunos. os meus metralhas, os meus marretas, os meus diabretes, os meus piolhos eléctricos, os meus amores. O afecto e carinho que transmitem compensam, se não tudo, pelo menos muito. E por eles julgo que tudo tem valido a pena. Até porque eles, justiça lhes seja feita, ainda conseguem ser sinceros e verdadeiros e ainda não viveram o suficiente para se terem tornado  hipócritas, verdadeiros invejosos e ardilosos a ponto de se querererm enaltecer humilhando e pondo os outros em causa.
Claro que os putos também são pestinhas às vezes, também são capazes de ser cruéis entre eles, mas não na mesma dimensão que os adultos. Além disso percebem muito bem porque erraram quando chamados à atenção, sem berros nem gritos, mas com conversas abertas e claras, de igual para igual. Aqui apetece questionar:’porque queremos tanto que eles cresçam e ‘amadureçam’ depressa e se tornem adultos, muitas vezes à força? Porquê? Para quê? Quando nós, adultos, de adultos não temos nem demonstramos tantas, tantas vezes, rigorosamente nada?’
Deixem-os ser crianças, adolescentes e jovens enquanto o são e lhes é permitido. Não lhes exijam mais do que isso. Há um tempo certo para tudo e as várias fases da vida devem ser vividas nas alturas certas. Quanto mais não seja para que não cresçam castrados ou se tornem seres humanos profundamente amorfos, revoltados e  frustados ou para que não façam ‘figurinhas’ algo ridículas quando tentam ser adolescentes aos 40 ou outros ‘…entas’. Aí já não tem nenhuma ‘piada’ e as suas atitudes podem tomar proporções desastrosas.  Para eles e mais ainda para o mundo que os rodeia.
Não deixar morrer a criança dentro de nós é uma arte. Deixar a criança ser criança é outra, muito nobre também, ainda mais difícil e árdua, tão árdua,  já que temos que nos baixar para a beijar, para lhe falar de igual para igual e olhá-la nos olhos e sorrir-lhe e afagá-la e ser sincero. Sempre. Dá trabalho.Exige tempo, esforço, dedicação. Mas compensa. Quanto mais não seja para que não a percamos no meio do percurso dos tumultuosos e tortuosos meandros da vida.
 
2 Comments

Posted by on 7 de July de 2005 in Sem categoria

 

Tags:

ceeedo

                                

 

 

Hoje acordei cedo.

Contemplo o mar sem o ver (os meus óculos dormem ainda) e sinto-o, ora calmo, ora sereno, ora agitado, ora escondido.

Está nevoeiro, aquele nevoeiro brincalhão que permite que se veja sem se ver, aquela bruma que esconde a saudade da terra, a dor de regressar sem saber se se volta. Este mar de hoje nunca mais será o mesmo mar, senão outro, ou o mesmo, sendo outro.

Fumo um cigarro que todos me dizem não dever fazer, mas só eu não me decido a abandoná-lo. É que ele, cigarro, sem ser fumado deixa de ter vida, não passando de mais uma simples palavra em arquivo activo.

Estou semi-nua e esta semi-nudez permite-me ver o além.

O carro do lixo interrompe esta minha descrição carregada de erotismo intrínseco à minha percepção do mar.

Agora foi a passagem de um camião em “high-speed” que me intimidou e não me permitiu manter o contacto estreito que julgo possuir com o meu eterno amado. Digo “julgo”, entre aspas, por puro pretensiosismo. Ele, mar, quiçá nem sinta que eu o contemplo tanto, o observe muito, o admire mais.

(O meu cigarro extingue-se sem eu o ter fumado.)

Ainda bem que existem folhas em branco, costas de páginas em branco, a cor branca. O que é a cor branca? Será que existe para que nela qualquer nódoa se note mais, para que qualquer um poeta sedento e sequioso possa ver as maiores profundezas da sua alma agitada, insaciável, inconstante, o seu reflexo e egocentrismo?

            Ainda bem que às vezes o mar é, também, branco e, tal como o poeta, parece sê-lo em fases pós-agitação, pós-revolta, como se se libertasse orgasmicamente de dores intensas ou de felicidades supremas.

            Ainda bem que o mar existe. Para nele nos retratarmos, para nele nos (re)vermos reflectidos sem precisar de espelho. E só ele sabe das relações turbulentas que mantém com a areia, dos conflitos entre os dois, dos momentos sublimes em que ele a penetra, inunda, sacia e ela o permite; ou dos momentos violentos em que ela simplesmente não aguenta, se afasta e o afasta.

            Apesar de tudo, prefere-o ao ser invadida e violada pelo Homem que a arranca à força e a leva para locais desconhecidos, para longe muito longe, demasiado longe do seu eterno amado, amante, amigo, irmão. Aí, ela sente-se simples areia, vazia, desfeita, adulterada. Por vezes, por orgulho ou vaidade, engrandece-se e dá-se ares de abnegada mas, quando à noite o barulho do silêncio a acorda e corrói e se sente, de novo, adulterada, chora lágrimas internas que se desvanecem no seio do betão, chegando a dor a atingir níveis tais que uma fissura aqui e ali lhe permite respirar de alívio e gritar, a plenos pulmões, pelo sossego e alegria feliz que o seu mar, só o seu mar, é capaz de lhe proporcionar. Eis então, que se sente, somente, uma mera areiazinha, incompleta, fracturada, exilada, morta em vida.

            Agora, uma calma enorme, imensa, intensa, apodera-se de mim e um sono teimoso insiste em semicerrar-me as pálpebras e eu, seminua, dispo-me de preconceitos e mergulho no leito do mar para me entregar ao meu sono e absorver toda a calma que só ele é capaz de me dar. E o mar e a areia continuam lá. Aquele mar e aquela areia.

 

 

Celeste

 

                                

 

 

 

 
Leave a comment

Posted by on 3 de July de 2005 in Uncategorized

 

Tags:

 
Follow

Get every new post delivered to your Inbox.

Join 75 other followers