Expressar o que se sente é uma arte.
Só disso me apercebo quando me deparo com seres cuja incapacidade de dizer o que sentem é tal, a ponto de não conseguirem distinguir a tristeza da melancolia, a angústia da ansiedade, a fúria da mágoa, a alegria da felicidade.
A mãe, por exemplo, funciona assim. O Jo também. Não significa que eles não sintam todas essas emoções, todas essas sensações e esses estados de alma. Sentem sim. A mãe, pelo menos, que eu amo mais, sempre amei e amarei mais, quiçá também porque conheço melhor, já que nada esconde e se dá a conhecer, sente e muito . E sofre provavelmente mais por não poder ou não saber atribuir um nome a tais estados de alma.
[Faço aqui um parêntesis para referir com toda a convicção e consciência que, prefiro agora, passado quase um ano após a nossa ruptura, não 'analisar' muito o Jo. Isto porque este texto foi iniciado em Fevereiro passado e só agora o estou a finalizar e a transcrever para o meu fiel PC. Para além disso a comparação que estabeleci em tempos entre o 'Sr. Jorge ' e a mãe me parece agora um pouco ridícula. Um pouco? Não! Imensamente! Este homem continua a ser para mim, apesar de três anos de partilha do mesmo tecto, a eterna incógnita, revestida actualmente de contornos surpreendentemente negativos, vingativos, auto e hetero-destrutivos, de quem não se deu a conhecer por esconder muito, por não poder, por não saber, por não querer… Continua o ‘politicamente correcto’ e aí em nada, mesmo nada, se assemelha com a mãe. E, também a ela atraiçoou, de certa forma, em termos de imagem e no que toca aos afectos. E a minha mágoa relativamente a este homem que os meandros da vida se encarregaram de colocar no meu caminho reside aqui e apenas e só aqui. Afinal partilhei umas boas centenas de dias com alguém que não cheguei a conhecer e nunca, mas nunca chegarei a saber se estou certa ou errada em relação àquilo que dele penso. Tão pouco sei que recordações devo separar... Mas tal acontece quase sempre em relação a todas as pessoas com quem rompemos, de uma forma ou de outra... Embora com ele gostasse muito que fosse diferente, pois foi um homem em quem confiei sempre tanto!(…)]
No caso da mamã é possível e bastante plausível que o não domínio da terminologia específica não lhe permita afirmar ‘estou angustiada’; ‘estou ansiosa’, ‘sinto raiva’. É então que, para saber como se sente e por que sofre, tenho que recorrer aos meus dotes de psicóloga ‘não-sei-das-quantas’ e perguntar-lhe ‘de que cor está a tua alma hoje, mã? ‘, etc., etc., etc. E o esforço e a paciência que isso representa e exigem só eu sei. E a cor amarga das lágrimas escondidas que me escorrem e lavam o rosto e a alma em segredo após o diagnóstico feito só eu sei também. Porque eu compreendo e sinto as dores da mãe como ninguém. Talvez porque nelas me reveja sempre muito e me identifique tanto e porque eu e a mãe já nem precisemos das palavras para nos entendermos.
O pai, por outro lado, pode não dominar o termo ‘ansiedade’, mas consegue dizer ‘estou agitado’, ‘parece que o coração me vai saltar fora’, mas a mamã nem isso consegue fazer. Daí advém, muito provavelmente, as aparentes frieza e enorme força de quem tudo suporta que sempre manifestou e que tantas pessoas, incluindo os meus irmãos, lhe atribuem. Contudo, ambas, frieza e força, parecem agora faltar-lhe cada vez mais. O que mais a caracteriza, com o passar dos meses, dos dias, das horas, é uma enorme, imensa apatia, um estado de alma de quase letargia e algo vegetativo. A Mamã surge-me agora mais pequenina, frágil, frágil, a desligar-se aos poucos do que a circunda. Parece-me que se levanta por instinto, ou pelo Pai, pelos outros, sempre pelos outros e apenas para os outros. (E escrevi Pai, propositadamente com letra maiúscula, porque ele esteve sempre acima de tudo e de todos aos olhos da mãe e em cada acto, em cada gesto, em cada tarefa doméstica executada diariamente como que de forma sagrada. Não queria aqui empregar o adjectivo serviçal, não tenho esse direito, nem creio que se encaixe; a mãe é grande demais para tal…)
Será que aqueles que se ‘dão ares de fortes’, durante muito tempo, anos a fio, décadas, quando fragilizam, a idade avança e a doença os vence, se vão mesmo abaixo por não serem realmente tão fortes como sempre aparentaram ser? Ou os que os rodeiam se habituaram à sua força e não são capazes de os verem como seres que também fraquejam? De quem é a culpa, se se pode aplicar aqui o termo culpa? De quem deu demais? De quem recebeu apenas? De quem é pouco sensível, demasiado voltado para o seu umbigo e não reconhece os limites, as fraquezas e necessidades dos outros? De quem não se apercebe que uma moeda tem também duas faces diferentes?
Será que a mamã (questiono e respondo convicta que sim!) se viu obrigada a ser forte pelos dela, por ela, por nós, pelo pai e por causa da sua inércia e dos seus comodismos? Ou será que ela é realmente forte e simultaneamente um ser humano que, como todos os outros, é dotado de fragilidades que negou durante muito, tanto tempo e, agora, simplesmente, não aguentou(a) mais? Há sempre um dia em que a máscara cai e o palhaço se vê incapaz de maquilhar um sorriso.
Eu, pessoalmente, acho-a forte, sempre achei, mas também muito sensível, muito sensível mesmo, só que esta descoberta fui-a fazendo paulatinamente à medida que me fui descobrindo também a mim mesma. Julgo também que, como a mamã se habituou a lidar sozinha com os problemas e com as enormes dificuldades da vida, a não se abrir com ninguém (por falta de confiança nas pessoas por se ter visto muitas vezes traída) a não ser com o pai que a ouve, mas que não sei se verdadeiramente a compreende, de certa forma ‘se exercitou’ a não se ‘confessar’ a ninguém. Só a Deus em quem ela crê com todas as forças.
O pai ouve-a, apesar de tudo, com a maior paciência deste mundo, mas não sei até que ponto isso ajuda muito a mãe, até porque há momentos da vida em que precisamos de uma amiga, de um amigo, de um irmão como ouvintes e não de um marido. (Eu por vezes sinto-me isso tudo quando escuto a mãe…)
O maior defeito do pai é não ter personalidade própria (o que faz dele, por muito contraditório que pareça, um bom e um mau receptor de mensagens, um bom e um mau confessor) e ‘emprenhar muito pelos ouvidos’. E julgo que, também contra isso, a mãe teve que lutar muito, em muitas ocasiões, anulando-se e ‘fingindo-se’ invisível noutras, ‘ficando naquilo que lhe parece’, como ela tantas vezes afirmava e afirma. Sim, porque a mamã, tal como eu, ou eu, tal como ela, não é fácil. Nada fácil. E muito difícil, senão impossível de domar.
Aparentemente o pai é de facto muito bom ouvinte. Isto é, não é surdo, ouve bem. Nada diz, fica muito atento, até abre muito os seus olhos verdes que por vezes se humedecem. O pai é também bastante sensível, mas carrega por detrás de si uma herança machista e uma carga genética rude, agreste, tão agreste que chega a doer. No entanto, nos seus olhos verdes, eu consigo ver o homem sensível que é e faceta feminina num homem a que não permitiram deixar-se soltar, que castraram ou que se auto-castrou. E vejo também um homem fraco, tão fraco, que todos os dias luta para se ‘dar ares’ de forte. Se realmente o meu pai escuta a minha mãe, é mais uma das minhas eternas questões. É pouco sincero nas raras considerações que tece sobre a mais pequena questão, o mais ínfimo pormenor. Ou melhor: até pode sê-lo no momento, mas muda de opinião conforme o interlocutor que se lhe apresenta e isso é muiiiiiiiiiiiiiiito mau! O que ele REALMENTE pensa nunca o revela, o que me leva a questionar se realmente raciocina, se se questiona. Mas… é óbvio que sim! E não tenho a menor dúvida de que o pai vive num burburinho interior constante, sendo esse um dos motivos da sua insegurança e dos seus achaques de ansiedade que vão e vêm com aquela regularidade e frequência que ele, melhor que ninguém, conhece porque os sente, só não os entende, atribuindo-lhes imediatamente uma causa de natureza física, sempre da maior gravidade que conduzirá no mínimo à invalidez e à morte precoce. É verdade; o pai não faz nada por menos. A hipocondria também é sua companheira fiel há anos e esta, ora me faz rir, ora me preocupa, ja que é um indício de que algo não está bem no seu íntimo.
O pai é um homem inteligente; é simplesmente um fraco, facilmente influenciável e moldável. E será que alguém de facto se importa com isso? E ele? Ele preocupa-se? Julgo que sim. E este meu ‘sim’ é intrínseco à relatividade da consciência das coisas que cada um possui. Naturalmente que a dele é diferente da minha. Não deixo porém, aliás faço questão, de lhe revelar as o quanto me importo com ele, não sei se da melhor forma, mas não deixo de o fazer. É até muitas vezes mais forte que eu. Por isso o ‘pico’ e provoco tanto, a ponto de ele se fartar de mim e não me aguentar mais. Até parece que ‘incha’ e fica prestes a rebentar, mas nada diz. Nem uma palavra. Apenas repete aquele tamborilar de dedos na mesa e baixa o olhar (se estivermos à mesa, claro está) ou trauteia uma ária que nem ele conhece, passeando-se como que cambaleando, de lá p’ra cá, de cá p’ra lá, sempre que as conversas sucedem quando estamos de pé. Só não é capaz de entender que eu quero que ele seja ele mesmo, que seja sincero, ainda que doa (o pai não gosta de magoar ninguém, prefere sofrer sozinho, mas consegue, no entanto, ferir quem mais ama, como todos os seres humanos, quais bestas que somos!) e que lute para ser capaz de ‘distinguir o trigo do joio’. Não tem também, infelizmente e para mal dos meus pecados, a percepção de que me seria muito mais fácil ‘mandar’ nele (descobri que ele até gosta!), manipulá-lo também, moldá-lo à minha maneira. Oh, como me seria tão mais fácil!
Provavelmente exijo demais de um homem já com os seus 74 anos a quem é já impossível mudar. E, sendo frontal e directa, impulsiva e bruta por vezes até, assusto-o bastante, gerando o bloqueio interno dentro do homem covarde que se me apresenta à minha frente e que é o meu pai. Acho que o agito demais e ele diz ‘que o quero matar’. Mas eu não consigo calar-me aos seus ‘achaques’, às suas passividades, aos seus comodismos, aos seus egoísmos, à sua quase falta de atenção e cuidado em relação à mãe que ele diz amar tanto e que é quem, nos últimos anos, realmente tem necessitado e necessita mais cuidados e mimos. O pai sempre foi o alvo das atenções e dos zelos da mãe (zelos excessivos, leia-se!) e de quase toda a ‘família’, incluindo familiares extra núcleo familiar. Até isso ele consegue, com os seus queixumes e chamadas de atenção contínuas, sendo reservado para a mãe o papel da ‘má da fita’ e da ‘mulher com mau génio’. Irónico, não é? Só por ser sempre simplesmente muito verdadeira, frontal, abnegada, mas orgulhosa. Isso sempre.
Também os filhos se preocuparam e preocupam sempre mais com o pai porque este se queixa sempre muito. Chegou agora a vez de ser o pai, o companheiro de 50 anos de vida, a fazer algo pela mãe, pela mulher que ele diz (e sei que sim) amar tanto. Só que o pai parece não ser dotado da mesma capacidade de entrega, como se a enorme, imensa que transborda da mãe o tivesse ofuscado. Ou simplesmente ele nunca a teve em si, nem tentou desenvolvê-la, nem foi educado e ’treinado’ para tal e se acomodou e encostou à sombra da mãe, bem mais pequena em tamanho, mas muito maior em presença e em grandeza de alma.
Sinto ainda que incomodo o pai demais. Um destes dias já nem pode ver-me, pressinto-o. Ama-me, sei-o, mas à distância é que nos damos bem. Pudesse eu roubar a mãe!
Retomando o assunto da capacidade de escutar os outros, a mamã, por outro lado, não é tão boa ouvinte. Talvez por ter passado toda uma vida demasiado atarefada para se dar ‘ao luxo’ de fazer uma pausa. Nunca vi a mãe a conversar sem estar a fazer uma qualquer outra tarefa. ‘Uma mulher quer-se sempre com um trabalhinho nas mãos’ é uma frase que ouço desde muito menina. Daí que a capacidade de trabalho que à mamã sobeja, tenha sido desenvolvida em detrimento de outras que foram ficando para trás. A capacidade de ouvir é uma delas: é-lhe até difícil escutar o outro, mesmo que o interlocutor seja eu, uma das suas filhas – para me fazer ouvir, tenho que repetir-me imensas vezes e chamá-la à atenção mais vezes ainda. Ao contrário do que por vezes cheguei a pensar, a mãe não ouve mal, não está a ficar surda nem senil; está simplesmente ausente, distraída, abstraída e talvez nem lhe apeteça ouvir ninguém. (Ok, talvez tenha o ouvido menos apurado, esteja muito impaciente e algo obcecada com os dois filhos mais problemáticos que lhe absorvem os pensamentos dia e noite a ponto de, por vezes, desligar da realidade. Ou talvez a mãe esteja simplesmente muito doente e muito exausta. Temo que esteja é cansada de viver e a ponto de começar a desistir).
Uma vez que a mamã viveu toda a vida em função da família, primeiro no papel de filha e irmã que ganha para ajudar para a casa, e depois no papel de mulher e mãe de 6 filhos (seriam mais não fossem alguns acidentes de percurso ou acasos que o não são nunca), a única compensação que uma mulher como ela espera agora será a nível familiar. O ver uma família feliz, unida, seria a sua realização plena enquanto mulher, esposa e mãe. O sentir-se amada e acarinhada também. Gostaria muito provavelmente agora de ver a sua ‘cria’ crescida, feliz, a procriar, a ter uma boa vida, e que a família que construiu com o pai a apaparicasse, visitasse amiúde e lhe levasse paz, desempenhando agora um pouco o papel a que ela dedicara (fez em Agosto passado) 50 anos de vida. Creio ser agora chegada a vez de ela parar um pouco, serenar, dar menos e receber mais. E julgo que a mãe, lá no fundo, no fundo, o deseja profundamente. Não é, no entanto, o que acontece. E os seus ataques de independência, o negar e recusar ajuda não são nada mais, nada menos do que reacções de orgulho de quem não está habituada a ser mimada e de quem não quer que a ajudem apenas por pena, mas por algo, mas muito mais que isso. Sim, porque a mãe sabe exactamente quem realmente lhe quer bem. A mãe exige sinceridade e amor. O pai, à sua maneira, consegue proporcionar-lhe isso. No campo afectivo, apenas. Em termos práticos, não. Eu consigo-o, no meu papel de filha dedicada que sempre tenho sido, abnegada até, mas tenho que estar longe. Por uma questão de sanidade mental. Pudesse eu roubar a mãe, a minha linda mãe, repito-o! Por ela tudo valeria a pena! E a dor da impotência e da distância é tanta e dói tanto, tanto, que me verei obrigada a carregá-la comigo até … um dia. Sabe-se lá até quando.
A minha ajuda a mamã nunca nega. O meu amor incondicional também não, até porque lhe digo muitas vezes que a amo e a mãe diz-mo a mim também (‘eu sempre te amei!’- diz-me) e sei que sou a única a quem é capaz de o fazer. Talvez eu seja a única que também o faça, não sei. (A dificuldade de expressar o que sente esteve e está sempre presente na mãe, é-lhe intrínseca.). Quiçá porque eu comecei por lhe expressar o que sentia, a beijar, a abraçar, a dar para receber. E isto é fruto de um esforço de anos de vida. Quiçá também porque eu tenho sido coerente comigo e com ela. E paciente, muito, e tolerante, atenta, sensível, verdadeira, frontal. Chocamos muitas vezes, tantas, já que somos muito iguais (como o pai não se cansa de repetir a ponto de, por vezes, já não nos suportar). Discutimos, magoamo-nos e choramos juntas, embora ultimamente menos; tenho tentado poupar a mãe um pouco mais, mas amamo-nos muito, sempre, cada vez mais. E estamos cada vez mais unidas em espírito, a ponto de eu sentir e quase adivinhar o estado físico e mental da mãe vivendo, no entanto, a 250 km de distância.
Ambas conseguimos desenvolver uma relação de mãe e filha interessantíssima, embora nos separe um fosso enorme de vivências, de mentalidade, de 40 anos de vida, mas mais de cem em termos evolutivos. Eu, no entanto, procuro, e tenho a obrigação disso, adaptar-me a ela, dando uma imagem verdadeira de mim mesma, nunca fingindo ser o que não sou e nunca iludir a mãe (nem o pai) no sentido de acharem que eu sigo à risca e me comporto de acordo com os cânones dos seus 300% de fé e crença católica apostólica romana. A mãe e o pai sabem muito bem que católica, eu, nem das ideias o sou! E ficaram a sabê-lo muito melhor quando conheceram o Jo, tiveram um choque e uma desilusão enormes (a primeira grande falha de uma filha ‘perfeita!’) e sofreram um duplo golpe aquando da nossa ruptura.
Resta-me entendê-los e perceber as suas preocupações de pais e o abismo de mentalidades que nos separa. Ou nos une, não sei bem. A mamã tem-se revelado igual a ela mesma, procurando inteirar-se da situação e, de alguma forma, perceber o que se passou, revelando interesse e manifestando o quanto gostava do Jo e o quanto desejava ver-nos juntos de novo. Eu expliquei tudo direitinho, o essencial claro está, por várias vezes, e o pai, embora diga que não, quer saber de tudo na mesma, com a agravante de ter muitas ‘minhocas’ naquela mente e muitos, imensos preconceitos que vai buscar não sei bem onde. E, o que é pior, continua a ‘emprenhar pelos ouvidos’ e a achar que estou cada vez mais encalhada, perdida até, embora nada diga na minha frente, mas muito diga nas minhas costas. E muito pense, sempre, demais, e nada expresse. E nada me diga. E isso é muito, muito mau. Para mim que sou sua filha e, o que é pior, para a mamã que sempre ouvirá alguns queixumes e murmúrios que só a irão apoquentar ainda mais.
Preciso aprender a esperar, a desenvolver essa capacidade que possuo pouco, para não entrar em mais conflitos nem em efervescência e para que tudo serene um pouco, e os meus pais se habituem ao sucedido e à minha, de certa forma, nova vida. Necessito ser mais sensata e não repetir o erro de lhes apresentar um namorado ou o que quer que seja. Parece ser melhor ocultar que dar-lhes a conhecer ‘certas’ verdades e que eles continuem a preocupar-se apenas com o meu eterno ‘encalhamento’ e a minha ‘solteirice’. Urge-me ainda aprender a dar tempo ao tempo e a tolerar e compreender o ‘desgosto’, ‘a facada no coração’ (palavras do pai) que uma filha ‘perfeita’ (imagem construída por eles em relação a mim) deu aos pais que o não mereciam: viver com o namorado e depois terminar a relação porque esta se transformou numa ralação. Eles simplesmente não estavam preparados para, nem estão ainda a ser capazes de digerir tal facto, principalmente porque lhes é muito difícil distinguir e separar as pessoas. Fosse eu homem e estaria tudo perfeito. Para além disso, eu e a minha irmã mais nova não temos agora nenhuma diferença e abstenho-me e recuso-me (dói demais!) a referir porquê.
Contudo, e ainda que eu apanhe por tabela, o que eu mais quero e desejo com todas as minhas forças, neste preciso momento, é que a minha mãe melhore e vença mais esta prova de resistência física e mental, sorria e solte aquelas gargalhadas ‘à mãe’ ou aquelas ‘caralhadas’ de desabafo. Mas que eu a tenha de volta. De alguma forma tem vindo a recuperar do cancro, da anemia, da pneumonia, da depressão, dos ataques de ansiedade, da coluna que sempre a atraiçoou e vai continuar a atraiçoar, mas as dores de alma, essas, estão sempre lá e são as que mais a mortificam. E resta-me lamentar ter contribuído também com a minha quota-parte, eu que, tal como ela em relação a mim, a tenho poupado sempre tanto.
Não suporto ver a mãe assim, não aguento, é terrível demais, embora desde o Natal passado tenha feito enormes progressos. Parece-me, apesar de tudo, que as pilhas que a alimentavam (e que eram melhores que as ‘duracell’, com toda a certeza!), são impossíveis de substituir. Ou talvez a mãe unicamente as rejeite e tenha atingido o limiar do suportar das dores de alma que suplantam infinitamente as dores físicas. Com estas a mãe soube sempre lidar e ultrapassar muito bem.
Eu sei que a mãe está a caminho dos 77 anos, que não é eterna embora eu quisesse que fosse. Também eu não serei eterna e ao querer que a mãe o seja não estou a ser mais que um ser profundamente egoísta. Só desejo muito, tanto, aliviar a sua dor, já que a sua vida foi sempre tão árdua, tão difícil, tão repleta de sacrifícios, cheia de trabalho, de dificuldades a todos os níveis, de problemas, de não-prazer!… Queria tanto que o tempo que lhe resta fosse vivido em paz e serenidade, com carinho e amor e que ela pudesse sentir isso, e que isso transpirasse e lhe fosse transmitido por outras vias que não apenas através do pai e de mim mesma! Porque isso não lhe basta, sei-o, sinto-o. Porque ela tem mais filhos, tem netos, tem noras, tem…
No meio de tudo isto pareço ser eu a única que, verdadeiramente, a consegue compreender. (Posso e devo questionar-me: quem me julgo eu? Deus? Mas também eu duvido da sua existência… Que sei eu dos outros e do que eles pensam e sentem? Resta-me, porém, basear-me nos factos e nas atitudes e comportamentos dos que me estão próximos e dos que a mãe ama profundamente e tirar conclusões e, então, nem sequer peço perdão pelas minhas imodéstia e arrogância…) Porquê, pergunto apenas!? Será assim tão difícil!? Ou será que todos os que me rodeiam e que se julgam a minha família são apenas totalmente e apenas desprovidos de sensibilidade e sentimentos? Ou serão simplesmente demasiado egoístas e estarão sempre muito ocupados com as suas famílias e unicamente centrados nas suas vidas? Não terei eu também uma vida que me absorve? Ou estarei eu apenas a pensar pouco em mim? Sou solteira, é um facto, não tenho filhos, nunca estive grávida, mas arrancava o útero se tivesse filhos assim. É o que eu sinto, nem mais nem menos. Quando queremos e amamos alguém e esse alguém é a nossa MÃE arranjamos tempo e espaço para tudo, e a perspectiva do mundo muda de figura. Também. Ou serei eu tão simplesmente uma ‘menina da mamã’ que ainda não cortou o cordão umbilical? Não o creio. Não o aceito. Não o entendo. Não o tolero. É desumano. Devo-lhe (devemos-lhe) a vida. Mas devemos-lhe muito mais que o ter-nos trazido ao mundo porque eu sei que isso não pedimos. Devemos-lhe o ter-nos dedicado a sua vida. Entendia estes comportamentos e aceitá-los-ia, se a minha fosse a pior mãe do mundo. Ou até se fosse uma má mãe ou uma mãe apenas medíocre. Terá ela que pagar o preço por se ter simplesmente dado sempre demais? Não, não o entendo! E recuso-me a aceitar esta situação como ‘normal’ e não se atrevam a dizer-me que ‘assim é a vida’. Não se atrevam, ouviram bem???!!!
E acabei por hoje este desabafo de merda. Perdoem-me o praguejar. Às vezes alivia e muitos desabafos por vezes também descambam…
Celeste Santos
04 de Setembro de 06
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