18 de Julho de 2009
Mamã linda ![]()
Bom dia, Mamã linda!
Já não posso ver-te, nem tocar-te, nem sentir o teu cheiro. A minha memória e o meu amor por ti permitem-me, no entanto, sentir-te, ouvir-te, conversar contigo (ou comigo?), cheirar-te e chorar-te. Continuas a ser a minha ‘Mamã linda’, quero que o saibas. Hoje fazes parte do meu sono e dos meus sonhos e incluo-te quiçá mais que antes nos meus pensamentos e pequenas conversas… Conscientemente? Não, claro que não. Falar de ti ou em ti é tão natural como respirar e deixa que te diga que o faço com muito orgulho e admiração profundas. ‘A minha mãe diz (ia) ‘ -ainda me engano muitas vezes nos tempos verbais; acho que a tua ausência ainda é só uma ausência breve e não eterna- é uma expressão que uso agora com facilidade e frequência, com que encho a boca, já que te consigo compreender cada vez melhor e me revejo cada vez mais em ti.
Está quase, quase a fazer 40 anos que me trouxeste ao mundo, precisamente no mesmo dia em que Neil Armstrong ‘pisou’ em solo lunar. Mas que te importa isso? Tu nunca soubeste quem foi Neil Armstrong, nem querias saber disso para nada. Sempre viveste noutra dimensão, ora por obrigação, ora por necessidade, teimosia ou vontade. Mas foste sempre tu mesma e amaste-me como mais ninguém algum dia será capaz de me amar. E dizias-mo porque eu te ensinei a dizê-lo, lembras-te? (Tu não eras lá muito dada a essas coisas das expressões verbais em termos de sentimentos…) E evoluíste tanto nesse campo, mas tanto, que já respondias aos meus ‘Amo-te, mamã/ Não te esqueças que te amo’, com um fantástico ‘E eu sempre te amei, minha filha’.
Hoje acordei muito cedo (coisa rara em mim, a um Sábado, tu sabes) e chorei a tua ausência. Contemplei uma foto tua de há 20 anos atrás, mais coisa menos coisa, que tenho no armário da sala, a adornar o ‘altar’ que construí por ti e para ti. Os avós estão lá também. Só falta a Nininha. Era Inverno e estavas na cozinha (Deus meu! Acho que te vi 90% das vezes aí!), orgulhosa do teu fumeiro e dos teus potes a brilhar (perdoa o meu não estar assim…), satisfeita como sempre o estavas quando a tua ‘cria’ te rodeava em tempos idos. Depois, tudo mudou, não foi Mamã?
E, de repente, a saudade tão intensa e a falta. Esse gigantesco vazio que ninguém jamais poderá preencher. Até porque eu sou matéria da matéria que era a tua. ‘Não mais te verei’, disse-te. E o pranto veio, mais uma vez, de alguma forma lavar a minha angústia, mas não levou a saudade. E o Amor, mas só ele, fantástico sentimento este que tudo pode, tudo perdoa, tudo permite, é o único bálsamo que me permite suportar o ‘não estares mais aqui’. Nem hoje, nem amanhã, nem no dia do meu 40º aniversário, nem…
Sempre gostei muito de te observar enquanto realizavas tarefas várias de tão perfeccionista que eras. Também por isso gosto tanto desta foto. Depois… Tinhas aqueles olhares característicos… O de cozer o pão, o de lavar a roupa, o de apanhar as couves ou regar a terra, o de estender a roupa a secar, ordenada por cores e tamanhos, o de arear os potes, o de fazer na renda ou na meia. Ah! E o de rezar! Não gostava nada desse, nunca gostei. Tinhas um daqueles olhares sempre sofridos, de mártir; parecia que todo o sofrimento vivido encarnava em ti naqueles instantes. Na Igreja, então… Até inclinavas ligeiramente a cabeça para o lado direito, mas talvez isso fosse mesmo só um trejeito ou simplesmente te doesse a coluna e te custasse estar em pé quieta. Do olhar que eu mais gostava? Ah! Esse era aquele que ‘escolhias’ quando te sentavas a ler. Esse sim! Adquirias uma espécie de ‘pose’, como se de outra mulher se tratasse. De repente parecia que encarnavas numa qualquer outra personagem que afinal também eras tu, crescias em tamanho e, muito concentrada, lias e lias, mexendo sempre os lábios, emitindo uns sons imperceptíveis, numa espécie de sibilar, como quem reza, só que com ar sereno e satisfeito. Ler para ti era actividade de fim-de-semana, de férias (corrijo: férias foram sinónimo de aposentação; nunca lhe conheceste o gosto…) ou de doente acamado. Foi nestas três situações, e em mais nenhuma, que te contemplei a ler.
O olhar de ler era aquele que mais me fascinava em ti, falando dos teus olhares. E, muito provavelmente, esse era olhar que eu gostava de ter visto mais vezes: o de uma mulher que finalmente mostra o que é. Uma mulher elevada.
Escolhi este poema para ti, para que o leias, uma vez que te é dedicado. Torga reforça tudo por mim, com muita beleza e emoção, embora eu te tenha já dito tudo. Ou quase tudo. O resto julgo que adivinhas. Acho que te assenta como uma luva e me preenche a mim também.
Um beijo dos nossos.
Mãe:
Que desgraça na vida aconteceu,
Que ficaste insensível e gelada?
Que todo o teu perfil se endureceu
Numa linha severa e desenhada?
Como as estátuas, que são gente nossa
Cansada de palavras e ternura,
Assim tu me pareces no teu leito.
Presença cinzelada em pedra dura,
que não tem coração dentro do peito.
Chamo aos gritos por ti – não me respondes.
Beijo-te as mãos e o rosto – sinto frio.
Ou és outra, ou me enganas, ou te escondes
Por detrás do terror deste vazio.
Mãe:
Abre os olhos ao menos, diz que sim!
Diz que me vês ainda, que me queres.
Que és a eterna mulher entre as mulheres.
Que nem a morte te afastou de mim!
MIGUEL TORGA
Diário, IV