E hoje mais um pedaço de mim se quebrou. Mais um.
Há muito que não sou inteira. (Haverá alguém inteiro?)
Eu, pelo menos, sei que o não sou e assumo-o. Não finjo, não escondo.
Não passo de um ser que apanha os cacos, os cola com cuidado, por vezes; outras com alguma violência e raiva, até reconstruir o vaso.
E o vaso que sou eu lá se vai aguentando, às vezes com ar mais tosco, outras vezes com pedaços que descolam e caiem de novo, outras vezes ainda com um adereço ou outro ou com umas pinceladas de cor fresca e nova de renovação.
Mas sou e serei sempre um vaso retocado que de intacto só tem a história. E a verdade dos seus relatos escritos fruto duma memória demasiado memória. Um vaso cuja alma foge por entre as fissuras para apanhar ar ou gritar bem longe para que ninguém a ouça.
O pedaço que hoje se quebrou doeu demais.
E entoará alto e baixo em mim durante muito, muito tempo. Talvez nem se cale nunca.
(…)
Se me distanciei fisicamente da minha família há muitos anos atrás, desde que aos 18 entrei para a Universidade tendo a consciência de que não voltaria, foi principalmente por uma questão de sanidade mental. O optar por viver longe, trabalhar longe, não significa que tenha deixado de me preocupar com os do meu sangue. Muito pelo contrário. Nunca os senti nem vi mais presentes do que eu.
Se a vida deles não é aqui, onde vivo, (como fazem questão de me lembrar!) a minha tampouco é lá, mas eu acudo e corro sempre que há problemas a resolver. E estou presente de corpo e alma.
Por que me dizem “não tenho culpa que tenhas ido viver para longe”, usando isso como justificação para tanta coisa?! (Pelo menos quem mo diz, di-lo. Não o esconde. Não o diz pelas minhas costas.)
Agora sou eu a precisar de ajuda e é visível e notável com quem se conta. E de que forma se conta. E não ter um ombro livre para chorar sem que nos diga “só trazes problemas” é triste demais!
(“Cresce, Celestinha! Apodrece, se preciso for. Mas sozinha estás, sozinha és, e há muito sabes que só contigo podes contar.”)
As pessoas esquecem-se muito depressa de tudo. Do bom e do mau. Eu não. Talvez resida aí também uma enorme diferença de formas de ver a vida, de se ser grato, de se respeitar, de se impor respeito. De se defender os que se diz amar, de amar, quiçá até.
(…)
Quando se nasce com uma doença do foro emocional que poderá nunca vir a manifestar-se, mas nos roubam logo a infância, estamos condenados, à partida, para que tal se verifique.
Acrescendo a isso, o facto de sermos dotados de uma sensibilidade extrema, faz-nos ter uma a visão do mundo “à flor da pele”, sentida “noutra dimensão”. Tudo o que vivemos atinge proporções desmesuradas: quer o bom, quer o mau. E quando as nossas experiências de vida traumáticas predominam … a nossa doença não faz senão despertar e evoluir. E esta revela-se das formas mais estranhas, atingindo proporções psicossomáticas e levamos anos até que nos acertem num diagnóstico! Se é que já o fizeram com a necessária precisão que as coisas da mente são muito delicadas… Fosse a mente um braço, uma perna, um coração, até… Seria algo palpável, visível… A mente, porém, é um belo solo com uma grande área por desbravar!
À nossa volta ninguém se apercebe, até porque é a nossa família que queremos sempre proteger. A família que devia ser o nosso porto de abrigo e que não cessa de nos bombardear com problemas e nós não queremos ser nem trazer mais um. Aos nossos pais nada contamos. A mãe carrega o peso do mundo e o pai não serve de força impulsionadora, muito menos de conforto para ninguém. Nunca serviu. E lidamos com tudo sozinhas, com a terrível dor d’alma que não sabemos onde se situa; se soubéssemos arrancava-mos essa parte do corpo, com toda a certeza!
O tempo passa, a vida torna-se bem madrasta e temos um medo terrível dos condicionalismos que uma bipolaridade nos trás. E esse temor advém da consciência e conhecimento da natureza da doença e da nossa enorme lucidez. Sentimos a vida condicionada e tememos os entraves que surgem, começando pela vida profissional, pelos relacionamentos interpessoais, pela vida familiar que deixamos de construir, acabando no receio maior: a solidão e o abandono num qualquer sanatório.
E abrimo-nos e confessamos o nosso pavor, até porque ninguém encara esta doença com a seriedade que merece, muito menos a nós mesmas que tendemos a brincar com ela e a desdramatizar. É então que, no meio das nossas lágrimas e soluços, obtemos por resposta de alguém em quem tanto confiamos: “Se calhar estavas lá bem melhor!”
Não doía tanto se não viesse de quem veio. Não doeria tanto. Resta-me o consolo de pensar, desculpando, que a ignorância é um mal terrível! A influência e o deixar-se influenciar, também.
Tenho muito a agradecer à minha família. Por me ter “obrigado” a manter longe. As moscas, de facto, não se apanham com fel. Foi desta forma que aprendi a ser “EU MESMA”, a não me deixar levar, a ser mais forte. A não obedecer nem me humilhar perante os homens. A não desculpar as suas fraquezas, nem as suas faltas de respeito, atenção e cuidados. Tive na família uma boa escola de machistas e fiquei vacinada para a vida. Julgam que não me lembro de nada só por serem bem mais velhos… Como se enganam, os idiotas!
Tornei-me mais agressiva, também. Mais dura. Teve que ser. Neste mundo precisa-se, e a minha família… oh! É um microcosmos deste planeta desumano e frio! Eles não me merecem! Estão a anos-luz de me conhecer, de saber quem eu sou, de perceber o que me vai na alma! Se já procurei entendê-los?! Mil vezes já os analisei, de trás p’rá frente, da frente para trás, verdadeiras análises psicológicas, explicando isto, aquilo e o outro, entendi, perdoei, mas nada desculpa a frieza, a falta de sentimentos e de carácter. E esta eu não aceito.
Injusta, eu? Não. Tenho simplesmente amado demais. Mas eles não querem amor. E o que eles querem não tenho para dar. Nem daria, se tivesse. Nunca me vi nem verei rodeada de interesseiros. Shuh p’ra lá!
(…)
Perdoa Mamã, mas não quero acabar os meus dias como tu, sendo a imagem de alguém que sempre deu demais. Que sempre se consumiu demais. E a quem deram tão pouco. Não vale a pena. As pessoas não valem a pena. E, apesar de muitas coisas que ainda faço serem em tua homenagem e por respeito à tua memória, desisto. Não me respeitam o suficiente. É que, sabes? Uma mentira dita muitas vezes, passa a ser verdade. E se for dita com a pose adequada, tanto melhor.
Estou cansada. Cansada de lutar em vão contra comodistas e hipócritas! No final, fica tudo bem e o único alvo a abater sou eu! E… dá para acreditar?! Até para os meus irmãos sou uma forasteira na minha cidade. Só que eu hei-de ser de onde muito bem entender! E quem decidirá em breve quem são os meus irmãos, se os considero ou não, sou eu! (…) Mas… voltar para aquela terra, a minha santa terrinha como lhe chamo, que de nada tem culpa… Nem morta! As minhas cinzas quero-as lançadas ao mar, se possível. Senão… também não importa. Já nada sentirei.
E se eu porventura acabar num sanatório ou algo do género, não ousem ir visitar-me, ouviram bem?! Não ousem! Não vos quero lá. Nessa altura será muito tarde para visitas de “alívio de consciência”.
Não me têm feito mais nada senão mal. Porquê?! Que vos fiz eu?! Toquei-vos nas feridas? Descobri-vos a careca? Ou disse tão simplesmente o que não queriam ouvir?
Quanto a ti, pai, lamento. Lamento que nunca tenhas tido personalidade própria e te deixes levar como as folhas pelo vento. Lamento tanto que gostes de ser enganado. Não me ouviste; nunca me ouves. Agora é tarde. Agora já é tarde e perdeste-me para sempre. E o nosso último encontro foi a coisa mais triste e lamentável desta vida. Não te reconheço. Já não és o mesmo homem. Como permitiste que te manipulassem assim a ponto de me quereres agredir, algo que nunca fizeste na tua vida?! As verdades doem não é? E ninguém mais tas diz. E não estás demente, nem senil, bem sei. Estás com ódio de mim. E és um homem sem palavra.
(…)
Se houver alguma réstia de justiça nesta vida, a única em que acredito, ela não há-de ser tão cruel assim… Nem há-de passar-me uma rasteira duas vezes… Não deste tipo!
E não me venham dizer: “Há sempre quem esteja pior!” que isso, perdoem-me, mas não me ajuda em nada. Tal como o meu mal, não ajuda os outros.
Estarei a ter pena de mim? Claro que sim! E porquê?! Não tenho direito de ter?! O mundo cai-nos em cima, desaba tudo e não podemos lamentar-nos? Revoltar-nos? Não temos o direito de dizer:”Não aguento mais! Já chega!”
Há dois verbos que não existem no meu dicionário pessoal: “prometer” e “resignar”. Não os conjugo. Não sei fazer isso. Não consigo. Quando souber, talvez esteja já em estado pré-vegetativo ou pré-alzheimeriado e os entoe em voz alta como cânticos…
Celeste Santos
19 Set.2012

“Painting of madhouse garden”, Vincent van Gogh
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